IMPERATRIZ LEOPOLDINENSE TRAZ CLAMOR DA FLORESTA PARA AVENIDA

Kararaô, Kararaô, o índio luta por sua terra
Da Imperatriz vem o seu grito de guerra!

Salve o verde do Xingu, a esperança
A semente do amanhã, herança
O clamor da natureza a nossa voz vai ecoar
Preservar!

Foto: Todd Southgate

Assim, ao grito de Kararaô, a escola de samba do Rio de Janeiro, Imperatriz Leopoldinense cantou Xingu, na madrugada desta segunda dia 27 de fevereiro.
Um desfile que invoca o pássaro protetor das terras indígenas, o Galvião real, e nos convida a conhecer as belezas indígenas, exaltando a fauna e flora da região. Do belo e assustador jacaré atravessando a avenida, passando pela coloridíssima ala dos tucunarés e pela encantadora ala das baianas representando as borboletas, tudo foi um show de cor e elegância.

Foto: Todd Southgate

Mas não apenas da exaltação a natureza e ao povo indígena, se fez o desfile, a escola ousou ao trazer a polêmica discussão dos grandes empreendimentos que atingem os povos indígenas do Xingu, destaque para o carro Belo Monstro, uma (não tão) sutil referência a Hidrelétrica de Belo Monte, concluída em abril de 2016 o rio Xingu. O próprio enredo canta a luta do povo indígena:

“O belo monstro rouba as terras dos seus filhos
Devora as matas e seca os rios
Tanta riqueza que a cobiça destruiu
Sou o filho esquecido do mundo
Minha cor é vermelha de dor”

Nesse caminhar histórico retratou a chegada do homem branco, a exploração da floresta, do ouro e do homem-índio. Mas também destacou pessoas importantes e que atuaram a favor dos povos indígenas, com direito a um carro em homenagem aos Irmãos Villa-Boas, fundadores do Parque do Xingu.

Foto: Todd Southgate

Trazer para a avenida um tema tão polêmico que após anos de confronto e lutas, e com o início das operações de Belo Monte, estava um pouco esquecido, causou a ira e revolta de muitos setores do agronegócio que se sentiu diretamente ofendido pelo enredo. Assim como gerou um comentário infeliz, extremamente discriminatório e intolerante por parte de uma jornalista que afirmou “Índio que quer preservar sua cultura não pode ter acesso à tecnologia que nós temos. Não pode comer de geladeira, tomar banho de chuveiro e tomar remédios químicos porque há um controle populacional natural — ele vai ter que morrer de malária, de tétano, do parto. É, a natureza.”

Apesar de toda as críticas, o desfile foi exuberante e trouxe para a avenida a voz do povo da mata, não apenas a voz, pois a escola se esforçou em trazer representantes dos povos indígenas do Xingu. Entre eles, a figura do Cacique Kaiapó Raoni Metuktire que foi uma das principais vozes na luta dos povos indígenas contra a construção de Belo Monte e que também era homenageado pelo figurino da bateria da escola.

Foto: Todd Southgate

Entre os indígenas convidados, a representante do povo Juruna da Volta Grande do Xingu, da Terra Indígena Paquiçamba que se localiza a jusante da barragem de Belo Monte, a indígena Leiliane (Bel) Juruna compartilhou um pouco dos seus sentimentos em relação a participação no desfile da Imperatriz:

Foto: Todd Southgate

“Vim pra representar meu povo, representar o povo da região com as coisas que vem acontecendo. É tanta das coisas, é tanto descaso que é irreparável o dano que tá causando pra nós e aí achei muito lindo também da parte da escola trazer esse tema porque o carnaval é visto pelo Brasil pelo mundo (…). Então foi um momento muito oportuno pra gente estar participando para estar presente, trazendo essa mensagem que a nossa floresta, a Amazônia tá pedindo socorro e que os produtos agrotóxicos também estão prejudicando muito a natureza, prejudicando as terra indígenas, e também o governo que não quer demarcar as terras indígenas é direito nosso ter nossas terras demarcadas. E aí eu vim e fiquei muito feliz de estar participando. ”
(…)
“Essa escola trouxe visibilidade para as nossas lutas, trouxe o clamor da natureza para a avenida”.
(…)
“As lutas nossa se constroem, e esse foi um passo muito grande, um avanço muito grande pra nós porque a gente construiu muito com essa representação da Imperatriz por ela trazer esse tema pra avenida e eu tô muito orgulhosa de ter participado. ”

Foto: Arquivo pessoal Bel Juruna

Nas palavras do carnavalesco da Imperatriz Leopoldinense, Cahê Rodrigues a intenção era trazer a voz do povo para a avenida e não apenas fazer um desfile:

 “Quando a imperatriz decidiu levantar a bandeira do Xingu, com o enredo Xingu: o clamor da floresta, nós não queríamos apenas fazer mais um desfile de escola de samba e sim, fazer um desfile um espetáculo de escola de samba mas dar voz aos índios poder apresentar na avenida a luta pela sobrevivência, a luta pela defesa da floresta, a luta que esses povos já travam há muitos e muitos anos ”. (Vídeo Movimento Uma gota no Oceano)

E ele fez isso belamente, vamos torcer que a causa indígena e ambiental tenha cada vez mais visibilidade na mídia e que este seja o começou de uma nova visão de respeito e união com nossos irmãos indígenas. Você pode ver o vídeo do movimento Uma Gota no Oceano no link abaixo:

https://www.facebook.com/movimentogotadagua/videos/986155574817253/