Gerenciando rios barrados: governança da água e gestão adaptativa na Bacia do Rio Colorado

É um prazer compartilhar o vídeo-documentário “Explorando o Programa de Gestão Adaptativa da Barragem do Glen Canyon no Rio Colorado.” No vídeo, líderes indígenas, pesquisadores, funcionários governamentais e gestores compartilham as suas experiências e perspectivas sobre a construção de barragens hidrelétricas no rio Colorado nos EUA e nos rios Amazônicos da América do Sul.

O vídeo documenta a primeira oficina da Rede de Pesquisa em Barragens Amazônicas / Amazon Dams Network (RBA/ADN), apoiada pela Fundação Nacional da Ciência dos Estados Unidos (National Science Foundation – NSF), Programa Sistemas humanos-naturais acoplados – Rede de Coordenação de Pesquisas (CNH-RCN), realizada em Flagstaff, Arizona, de 15 a 18 de maio de 2017. O evento foi co-organizado pelo US Geological Survey (Southwest Biological Science Center), a Universidade do Norte do Arizona (NAU), a Universidade da Flórida (UF), a Universidade Federal do Tocantins (UFT) e a Universidade Federal de Rondônia (UNIR). O evento incluiu a participação de 55 pessoas, que representam uma diversidade de orientações disciplinares, experiências, perspectivas, papéis e conhecimentos sobre gestão de sistemas fluviais no Brasil, na região andina e nos EUA.

A gestão adaptativa é uma abordagem para estudar e gerenciar sistemas ambientais que inclui  experimentação e aprendizagens ativas,  adaptando ações de gerenciamento de acordo com os objetivos definidos para esse sistema. Alguns destaques e lições aprendidas durante o evento, retratados no video, incluem o fato de que os sistemas de valores orientam os objetivos para o uso de um sistema sócio-ecológico, bem como decisões de pesquisa e gerenciamento, e que estes precisam ser entendidos e negociados entre sociedade e tomadores de decisão.

Grupo da RBA em visita de campo ao Rio Colorado.

De acordo com David Wegner, que trabalhou extensivamente no estabelecimento do programa de gestão adaptativa da barragem do Glen Canyon no Colorado, a gestão ou gerenciamento adaptativo, em princípio, proporcionou maior participação societária na compreensão e tomada de decisões sobre a gestão do rio Colorado, bem como nas transformações pós-construção da hidrelétrica, incluindo a garantia de um assento na mesa de decisão para os povos indígenas da Bacia do Rio Colorado. Philip Fearnside (INPA), observou que o gerenciamento adaptativo, que inclui a negociação entre atores sociais, pesquisa e monitoramento contínuo, pode ser uma abordagem interessante para áreas já transformadas por barragens, mas não deve ser usada como “solução” ou justificativa para a construção de mais barragens.

Aprendemos que a governança da água tornou-se cada vez mais complexa no rio Colorado, tendo em vista as múltiplas perspectivas, objetivos e interesses concorrentes relacionados ao sistema fluvial e os diversos serviços e benefícios que proporciona aos humanos. Estados e países estabeleceram acordos que precisam ser cumpridos, mas em um cenário de mudanças climáticas e crises socioeconômicas e políticas, o cumprimento destas metas é desafiador e a incerteza é alta.

Octavius Seowtewa, do Povo Zuni, compartilhando perspectivas e histórias do Povo Zuni documentadas nos petroglifos ao longo do Grand Canyon.

Outro destaque do evento foi a participação e contribuição de representantes de povos indígenas dos EUA e da Amazônia brasileira. Octavius Seowtewa, do povo Zuni, compartilhou seu conhecimento sobre os petroglifos e a história das peregrinações dos Zuni no Grand Canyon, um lugar sagrado de emergência para muitos grupos norte-americanos, como Zuni, Navajo e Hopi. Ele mencionou que os povos indígenas e seus sistemas de conhecimento e valores tem sido historicamente negligenciados nos programas de planejamento e gerenciamento de bacias hidrográficas no Colorado. As mesmas experiências foram compartilhadas por Candido Munduruku e Eliete Juruna, representantes dos povos indígenas Munduruku e Juruna, afetados pelas hidrelétricas do Teles Pires, São Manoel e Belo Monte na Amazônia brasileira.  Vários grupos indígenas destas regiões têm sido vítimas de violação dos direitos humanos, conflitos (incluindo conflitos armados), impactos permanentes sobre locais sagrados, destruição dos meios de subsistência tradicionais, e insegurança alimentar.

Uma conclusão coletiva foi que eventos como este workshop transdisciplinar possibilitam a aprendizagem a partir de múltiplas perspectivas, além de promover e fortalecer o diálogo intersetorial para melhorar o planejamento e gerenciamento de rios na Amazônia e em outros locais. A rede se reunirá novamente na Universidade Federal do Tocantins (UFT) em Palmas em maio de 2018, para aprender com a experiência do rio Tocantins e para subsidiar abordagens e iniciativas de gestão adaptativa nas bacias hidrográficas amazônicas.

Maiores informações e acesso às apresentações do workshop: http://amazondamsnetwork.org/nsf-workshop-flagstaff/

Link para o vídeo na página da rede no You tube page: https://www.youtube.com/watch?v=BycM82urPDI

USGS/Southwest Biological Science Center: https://www.usgs.gov/centers/sbsc/science/glen-canyon-dam-adaptive-management-gcmrc-science